Pensamentos
COITADINHO DO ADÃO 
Mari Vanzuita
Sou feminista. No alto da exuberância de minhas manifestações feministas indomáveis senti um carinho amistoso, certa pena de Adão – talvez seja por uma recente descoberta, talvez por carma.
Tudo aconteceu assim, como pequenas agulhadinhas que vão costurando uma lacuna no peito e subindo de mansinho, picando e apertando, de um lado e de outro. Um caseadinho bem pequeno, que está lá. Cerzido.
Após uma leitura sobre a lenda de Lilith, que fizemos em grupo com conseqüentes ou inconseqüentes discussões, uma idéia sobre ele foi surgindo, tomando corpo – e que corpo! – ganhou vida na minha contradição E eu, que sempre achava que os primeiros em tudo são muito mais prepotentes e arrogantes, fiquei com dó do primeiro modelo de homem. Gente, que super dodói essa criatura, sem mãe nem pai, nem seu sexo sabia direito qual era. No princípio de tudo...
Deve ter sido bem complicado ser o primeiro de uma espécie. Pra começar o Todo Poderoso fica de onda com o cara: põe rabo, tira rabo, mexe um dedinho aqui, dá uma corzinha ali; faz dele uma figura andrógina – sabe, dois em um – aí quando ele está no Paraíso todo enturmado com os bichos que ele pôde nomear, fodendo umas gazelas, metendo nas cabrinhas, ganhando umas lambidas de ovelhinhas... Inventam que a criatura tem de ter mulher!
Ele até fica animadinho, acha que vai ser legal andar de mãos dadas na beira do lago, catar pedrinhas de sal no Mar Morto, roubar uns frutos proibidos. Aí, o Todo Poderoso, que cansado de suas majestosas criações – estão pensando que criar um mundo é assim fácil, é? - baixou o padrão de qualidade e criou uma fêmea de tudo de nojento, com sangue, saliva e a chamou de Lilith.
Pô! Adão, uma figura tão pró ativa, extremamente colaborador na criação do mundo, nem foi consultado sobre seu modelo preferido, teve de se contentar com aquela coisa nojenta como quem ganha uma injeção na testa.
A mulher veio: feia, fedorenta e sexo maníaca. Adão até tentou quebrar o gelo, no Cântico dos Cânticos ele fez um esforço bastante original: buscou admirar sua beleza, estabelecer uma relação com a beleza das montanhas, das gazelas (ah, as adoráveis gazelas que ficavam bem quietinhas, paradinhas só sentindo o “vuco-vuco”); de nada adiantou.
O que a mal agradecida fez: foi bater perna pelo mundo, queria transar à moda dominadora, só faltava um chicotinho, se bem que se ele tivesse ainda aquele rabinho seria uma perspectiva interessante. Bem, já não bastava tanta injuriação, o Todo Poderoso achou que aquela mulher não prestava, que o Adão merecia outra e dessa vez ia ser carne de sua carne, sangue de seu sangue.
Adão ficou esperançoso e tudo, imaginou que fosse participar de um ritual meio místico, de dar um corte de leve no pulso e deixar cair um sangue em algum lugar e ali germinaria uma nova mulher. Mas sabem como é o Todo Poderoso, né: magnânimo, exagerado. Mutilou o pobre do Adão pra criar a nova mulher.
Essa até que era mais bonitinha, deixava ele fazer como as cabrinhas, mas muito sem gracinha. E o tempo foi passando, passando e de repente as duas mulheres se encontraram – e mulher quando se encontra pra falar de marido... se as orelhas começam a arder, vem chumbo grosso. E não é que a sem gracinha começou uma ladainha: que Adão nem reparava mais nela, ela só vivia com os dois ranhentinhos (Caim e Abel) agarrados nas tetas e se pegando, que o corpo não era o mesmo, que seu trabalho não era reconhecido, que Adão vivia mais no meio do mato do que com ela, parari, parará... Os dois guris, vendo a agitação da mãe caíram no maior berreiro e a outra só ria, gargalhava da desgraça alheia.
Aí ele não agüentou, não agüentou mesmo, e gritou: - VÃO à merda! PÀRA COM ESSA PORRA! ISSO É UM INFERNO! EU É QUE NÃO AGÜENTO MAIS!
O Todo Poderoso, que estava aproveitando suas milhagens grátis e foi dar um role na Lua, pressentiu que vinha tempestade por aí e que Adão estava entrando em colapso nervoso e interveio. Tinha que dar uma moral pro cara. Então, dirigindo-se a primeira mulher, deu uma bronca e mandou a “nenonha” viver condenada no inferno com os outros demônios. A sem gracinha acabou vivendo o inferno em vida mesmo, teve que lavar, cozinhar, limpar, dar conta dos ranhentinhos – muito mal e porcamente por sinal, tanto é que um acabou matando o outro – e ainda teve de assumir toda a culpa pelos pecados da humanidade.
E o Adão, nisso tudo, teve que ter atitude de macho! Teve que ao menos em postura, superar suas carências: sem pai nem mãe e mulher que preste; assumir seu posto de primeiro homem, exemplo que afirma a onipotência do Todo Poderoso. Usou dos recursos da gestão para organizar a ordem “natural das coisas” - sabem que ele deixou o cavanhaque crescer para ganhar um toque mais dominador, ficou uma graça aquela cara de mau.
Ah, como eu sei disso tudo, assim tão ilustrativamente... É que depois da discussão no grupo, eu fui passear numa fazenda, olhava umas ovelhas imaginando um assado bem suculento, daqueles com marinada líquida de vinho, alho, mel, mostarda, pimenta calabresa, pimentão, cebola, alho poro, cheiro verde; depois um assado lento e cuidadoso em rolete e fogo de carvão, com umas batatas cozidas e arroz soltinho acompanhando, um molhinho de leve... e comentava sobre a leitura com alguém, achando que estava inspirada a escrever uma crônica, em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, sobre como a mulher vem sendo subjugada desde a criação. Escutei um sussurro, marcando um encontro atrás de uma determinada árvore no pomar.
Curiosa, fui. Vocês acreditam que quem aparece era uma ovelha chamada Doli, achei que estava doidona e estava vendo coisas; ela disse que não. Que ela conhecia outra versão para meu relato; e quanto ao lance da comunicação: eu não devia me espantar, que era uma revelação de um segredo universal, que todos os seres vivos estabelecem contato entre si, coisa de ecologistas, na real.
O que Doli queria me dizer era que ela é de uma geração muito, muito antiga de ovelhas e suas histórias são passadas de geração em geração. Sua tatara tatara tatara e lá vai cacetada avó, contava a história de um homem, um tal de Adão que ficava atento às mudanças climáticas e ajudava o rebanho a se abrigar, “sabia alegrar uma gazela como ninguém”, ajudava a parir nos partos difíceis, até cantar com os pássaros ele cantava; um cara muito camarada. Mas, no fundo daquele coração tinha um pobre infeliz, estressado com a sua vida e só encontrava paz no refúgio com os animais. Um cara que lutava diariamente para alimentar uma família (bem grandinha por sinal, para quem era filho único de ninguém); agüentar as manias de um chefe centralizador, que vivia se metendo em sua vida; profundamente frustrado por não conseguir, de jeito nenhum, entender o que se passava na cabeça da mulher. E ele: TINHA DUAS!
Escrito por Mari Vanzuita às 19h33
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Reflexões
AS PINTAS DE TÂNIA
06/04/2008.
“Eu tenho um sonho que um dia” as pintas de Tânia poderão ser as pintas de Deborah, poderão ser as pintas de Iomara, de Ivana e de Maristela... será que já pintaram em Mandela?
Talvez já tivessem pintado em Joana D’Arc; nunca as imaginei em Maria Antonieta. Foram elas que com certeza tornaram Marilyn “sex simbol”; Madonna “a Rainha do Pop” e o Scliar mais experiente.
As pintas de Tânia parecem ter pintado abaixo do olho direito de Cora Coralina; passearam pelo corpo de Mãe Menininha e ali em cima do lábio esquerdo de Zezé Motta.
Sapecas passearam por todo canto.
No nariz da moça: bruxa.
Nas bochechas: charme.
Próximo ao peito: sedução.
No umbigo: malícia.
Na perna: fama.
No pé: ah, quem nota pinta no pé?
As pintas de Tânia só querem um lugarzinho no mundo: o de Tânia, o seu e o meu. E no de King; que é - nosso?
“Por isso estou feliz hoje. Nada me preocupa, não temo ninguém. Vi com os meus olhos que” as pintas de Tânia são as mais aventureiras que já conheci, fazendo “diferença sem inferioridade”, também podem nos mostrar o que é alteridade.
Donas pintas que pintam no mundo, uma pergunta não quer calar: será que o Dólar vai aumentar?
Escrito por Mari Vanzuita às 19h27
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NUM LOVE COM VOCÊ
NUM LOVE COM VOCÊ
Prepare-se! Vou arrasar!
Água morna caindo no corpo – ui que delícia! – esfrega, fazendo bastante espuma com o sabonete – ah, que cheiroso!
Seca rapidinho – estamos atrasadas! – não esquece o anti transpirante e o hidratante e o perfume: nos pulsos, no cotovelo, atrás das orelhas e do joelho.
Veste a calcinha – essa não, dá a outra, menorzinha – um spray aqui, um spray ali e “voilá”, nada de entalar!
Sutiã combinando?
Top é melhor.
Shortinho curtinho, com bolsinho e camisetinha. Cinto de brilho, bolsa combinando com sapato.
Seca os cabelos, penteia, preso é melhor.
Delineador: de olhos, de boca, de sobrancelha.
Brilho, muuuito brilho.
Dobra os joelhos e pula, pula, sacode, agita...
Água mineral, uma cervejinha de leve...
Halls e boca; muito beijo na boca.
E pega, amassa, agarra, passa.
Ca mi si nha!
Não sabe o nome e só chama de amor.
O que é carnaval mesmo?
Escrito por Mari Vanzuita às 18h05
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MINHAS AVENTURAS COM O GURI VERMELHO 
Adorava subir em árvores e andar de calcinha nos dias quentes de verão.
O Vermelho também.
Éramos tão parecidos que não víamos distinção nenhuma que não fosse nosso modo de mijar. Ou melhor, de fazer xixi, como insistia tia Teta.
Jogávamos bolinha de gude e o danado tirava as minhas da toquinha; a mira do peste era melhor que a minha. Mas ninguém me ganhava na prova do equilíbrio no muro, eu caminhava passo a passo com os braços abertos, fazendo pose de avião, até dava uns pulinhos.
O Vermelho era especialista em domar as galinhas e jogá-las pelo quintal pra ver se voavam. Ou ficar de olho nos ovos chocos para ensinar os pintinhos a correr.
Comíamos goiaba até a barriga quase explodir e não agüentar mais os bichos que entravam. Aí era só correr pro banheiro que lá vinha caganeira.
Deitávamos na parte azulejada do pátio no fim da tarde, sentindo o calor nas costas e contávamos formas de nuvens que dançavam, numa tênue linha entre sonho e realidade. Ah, o cheiro do mormaço quente... Até que a torrente de chuva caia e a gente só ria pulando nas poças que se formavam.
Tirávamos bicho de pé com espinhos de limoeiro. Ai, que coceirinha gostosa. Até que fui obrigada a vestir camisa e tudo mudou. A nossa natureza já não era mais natural, começaram a dizer que Vermelho era razão e eu, emoção. Nos víamos como dois alienígenas de mundos distintos.
Maldita camisa!
Escrito por Mari Vanzuita às 17h55
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Nerdas
NERDAS?: UM ENSAIO EPISTEMOLÓGICO SOBRE O TERMO
Crônica by Mari Vanzuita – 18/02/2008
A escrita de um ensaio epistemológico pode ser algo demasiado complexo quando se faz referência a um termo americano tão difundido - pela qualitativa mídia americana no gênero para adolescentes, é claro – já que os do gênero nacional geralmente não têm loirinhas com peitões, nem jovens pulando janelas de cueca, tampouco descobrindo como se usam os vibradores.
Há contudo, a possibilidade de se explorar pelas raízes fulgurantes do conhecimento, ou seja epistemologicamente pensando, acerca do escancarado deboche de uma representação da inteligência: os nerds.
Em uma proposição empírico-analítica questiona-se se os rapazes estudiosos, introspectivos, que geralmente andam de camisa passadinha, calça social, meias e tênis, cabelos indefinidos, comumente usam óculos e vivem de mochila nas costas são chamados de nerds; como se chama para a versão feminina?
Elaboramos, nesta intricada e quase embriagante aventura pelo conhecimento, algumas hipóteses para a questão problema. Assim, ao pensarmos nos nerds como fenômeno social amplamente difundido – toda escola tem pelo menos um – veremos que a versão feminina não pode se caracterizar no gerúndio; já que há um significativo e muito onipotente interesse em abolir tal forma nominal do verbo, que juntamente com o infinitivo e particípio compõem a gramática de nossa deliberada e nem sempre habilidosa, Língua Portuguesa. Não, não, por favor, não é separar a criatura da cópula, tampouco um Ménage a Trois (particípio e infinitivo não são pessoas), mas é quase uma masturbação gramatical (pelo menos para quem quer abolir – sabe como é: fica-se imaginando e abstraindo, futurizando, mas não é a realidade de fato).
A propósito de uma segunda hipótese e já detonada pelos caçadores de mitos, cujas referências cito nas notas de fim (embora não necessariamente no fim deste texto), é que a versão mais correta seria o vocábulo “emo”. Contudo, emo – paroxítona terminada em o (e-mo), cujo significado ainda está em desconstrução – não se caracteriza como uma palavra feminina. Bem, os limites entre feminino e masculino para os emos são realmente muito restritivos e seu estereótipo andrógino transita entre Rockabilly; Punk; Dark e Nerds (nossa! é quase um congestionamento de evolucionismo).
Portanto, nossa mais provável e deliciosa hipótese está relacionada a uma corrente epistemológica que, digamos assim, é muito apreciada pelos comunistas – ui, delícia. Adoro coisinhas comuns: um pretinho básico; um saboroso francês e um mineirinho de acessório (é TUDO) – ah, sim, desculpem a viagem, me empolguei...
Mas, faço referência à perspectiva crítico-dialética, uma práxis insurgente que se revela nas contradições e emerge, como a fênix renascida das cinzas, transformada em marco de luta e base da libertação; diria algum poeta com dedo em riste: da libertação, da ética e alteridade e da justiça não menos que material – gente! Gente! Tô boba! Será que consigo virar oradora? Pensei bonito. Bem, sou intelectual e intelectuais pensam intelectualidades, se elas são bonitas ou não, não vêm ao caso, são intelectualidades.
Sem fugir do foco, em relação ao refletir sobre como se denomina a versão feminina de nerd numa perspectiva crítico-dialética, é possível perceber que a dialética dá pro crítico, mais uma vez o feminino em detrimento do masculino. É um saber-agir tão completo, diferenciado, interdisciplinar, plural que a transformação social acontece. Acontece em “Nerdutopia”, um universo distante aonde os homens inteligentes são chamados de nerds e mulheres... se houvessem, seriam chamadas de nerdas.
Escrito por Mari Vanzuita às 17h53
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TÔ AQUI
Entro nesse campo novo, louco, emergente, conexo, infoviário. Extraordinário! Ói eu, tô aqui.
Escrito por Mari Vanzuita às 17h51
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